quarta-feira, 4 de maio de 2011

És Católico? Sou! O que é que isso quer dizer? hum... bem...

- És católico?
- Sim, sou! - digo com orgulho.
- E és praticante?
- Claro - respondo, levantando mais um pouquinho o nariz de orgulho, como me ensinaram na catequese, que não se deve ter receio de mostrar que se é católico.
- E praticas o quê?
- Vólei, na escola!
- E o que significa católico? - insiste.
- Hum... bem... que se vai à missa? - gaguejo.

E agora uma adivinha.

Quantos católicos saberão o que significa católico?
Talvez a mesma percentagem de pessoas que sabem como é que o povo hebreu estando na terra prometida, precisou de ser salvo do Egipto por Moisés.

E atenção, isto não precisa ser matéria de catequese. Revela apenas falta de zelo.
Sou católico apostólico romano. Católico significa universal. Apostólico significa descendente da tradição dos apóstolos e fiel à sua missão. Romano significa que me conservo fiel ao Papa de Roma e a nenhum outro.
Já agora, o povo foi para o Egipto no tempo de Jacob, por via do seu filho José, para fugir à fome. A história é bem bonita. Se não conheces, atreve-te a ler. Aliás, toda a vida de Jacob é, no mínimo, fascinante.

E agora, outra adivinha:
Sabes o que aconteceria se tu, sendo católico, te achasses no direito de interpretar as leituras a teu bel prazer?
Estarias equívocado: serias protestante.
Ninguém está proibido de retirar conhecimentos e fazer interpretações pessoais de passagens bíblicas. Mas agora atenta comigo: Que fazer quando tu e o teu irmão decidem fazer o mesmo exercício e, chegando a uma passagem mais ambígua, ambos retiram um significado mais ou menos válido, mas contraditórios em si?
Ambos que eram cristãos, passaram a ser o Cristão do Reino de Deus e o Cristão dos Santos dos últimos dias.
Mas se a lógica nos diz que, por natureza, a bíblia não é contraditória, como retirar as teimas? Quem terá autoridade para dizer sim ou sopas? Talvez quem recebeu autoridade de Cristo, os apóstolos, ou seja, os bispos. E se mesmo os apóstolos entrarem em contradição? O Papa.

Pessoalmente não gosto nada da adjectivação católico praticante e não praticante.
O diálogo inicial, é um imaginário de mim a interrogar o meu eu com 14 anos de idade.
Já me perguntaram algumas vezes se eu era católico praticante, mas nunca de quê. É uma mágoa que tenho. Mas já tenho a resposta preparada na ponta da língua, para quando se der a efeméride: "de santidade. Mas vou muito no princípio, ainda só passei a uma cadeira, mas pelo menos foi com distinção: a de pecador."

segunda-feira, 2 de maio de 2011

O católico fixe

Recentemente descobri que existe uma nova categoria de católico.
Toda a gente fala do católico praticante e do católico não praticante.

Acho mais interessante falar do católico fixe (aka católico independente)

E porque é que ele é um católico fixe? Porque embora dê ares de filiação à Igreja Católica Apostólica Romana, rebatendo alguns comentários e opiniões obtusos e salientado o que de melhor ela tem (a obra social), desmarca-se dela em assuntos que não concorda, nem põe a mão no fogo para não alimentar polémicas. Vai à missa quando quer porque sente necessidade. E é agraciado por epítetos como "gosto de falar contigo porque tens opiniões próprias", "não és obtuso", "deviam haver mais como tu".
Desmarca-se do comum dos católicos por ter conhecimentos substanciais sobre doutrina e até alguma coisa sobre direito canónico, e saber tanto argumentar porque concorda ou porque discorda.

Na minha opinião, há por aí uma grande quantidade de católicos fixes. Pessoalmente prefiro-os aos não praticantes e até mesmo a alguns praticantes. Em bem da verdade, prefiro um sim ou um não, a um se calhar. Prefiro que alguém participe e bata com a mão no peito, a alguém que só bate com a mão no peito porque faz parte do ritual. Prefiro quem escuta a palavra de Deus, a quem só pensa "é sempre a mesma coisa". Prefiro quem se empenha em favor de quem precisa, não importa quanta dose de rebeldia, a todos os que passam a vida a acenar que sim mas só levantam o rabo do assento para compor a maquilhagem.

E tu, és um católico fixe, ou um católico que veste a camisola (ou melhor dizendo, despe a camisola - para partilhar com quem tem frio) não importa o que digam da Igreja?

sábado, 19 de março de 2011

A manipulação da opinião pública

Estava aqui a pensar com os meus botões sobre a tensão política que se vive neste momento e o meu pensamento escapou-se para uma memória relacionada com o aborto.
Para quem não sabe, os deputados são normalmente livres de votarem nas tomadas de decisão da Assembleia da República, contudo, os partidos políticos têm uma ferramenta muito útil que lhes permite obrigar todos os deputados da sua cor a votar num determinado sentido.
E foi isso que aconteceu no diploma do aborto. Como o PS tinha a maioria juntamente com os partidos de esquerda, obviamente que foi aprovado com o PSD a votar contra. Mas lembro-me perfeitamente que, ao noticiar esta votação, o canal televisivo salientou o facto de 2 ou 3 deputados do PSD terem votado contra somente por obrigação do partido, já que eram a favor do aborto.
Assaltaram-me logo várias questões. Não haverá nenhum deputado do PS contra o aborto? E havendo esses deputados contra, será que nenhum fez a mesma observação que os do PSD? Isto é, que só votavam a favor, por obrigação?
Pessoalmente, parece-me mais grave uma pessoa sendo contra votar a favor, que sendo a favor vote contra. Logo se é mais grave, mais razões tinha para declarar a sua opinião.
Não conheço suficientemente bem os hábitos do parlamento para tirar ilações, mas as minhas deambulações parecem-me lógicas. Deduzo, portanto, que de ambas as bancadas tenham surgido chamadas de atenção, ao facto de irem votar no sentido contrário à sua opinião por dever partidário.
No entanto, a televisão apenas achou oportuno mostrar que apenas uma minoria votou contra o aborto e, que mesmo dentro dessa minoria, houve pessoas contrariadas.
Se se deu o caso de, efectivamente, não haver ninguém do PS contra o aborto, então os media que me perdoem este comentário, e só posso estar feliz por nunca ter votado neles.

terça-feira, 15 de março de 2011

Psicologia? Não, obrigado!

Tenho uma pequena alergia de estimação por psicólogos. Chego inclusivamente a fazer um trejeito facial quando ouço a palavra.
Normalmente associam essa minha atitude a um certo e determinado grau de loucura. Mas é sempre seguido de espanto e incredulidade. Como é possível alguém ser contra a psicologia? Se não fosse possível eu não existiria. Como existo, é sinal que deve haver algum motivo.

Penso que não foi um dia de manhã, ao acordar, que pensei nisso, mas andou lá perto. E as culpadas por esta ideia são as famílias no concreto, ou a sociedade no geral. E um ponto de partida foi a seguinte constatação: "antigamente, quando os filhos se portavam mal, levavam dois tabefes; hoje em dia, levam-se ao psicólogo".

E este é o cerne da minha alergia. Não é a valia que um tratamento psicológico pode trazer em caso de traumas.  Mas a atitude das pessoas perante a psicologia: "Há um problema? Leva-se ao psicólogo!" Já não é a primeira vez que digo aqui, que há pais que se demitem da sua tarefa de educar e passam-na para os professores e para os psicólogos. As teorias educacionais modernas são importantes, mas levadas ao extremo assustam-me. Porquê? Porque revogam mais de seis mil anos de experiência, com bons resultados.
Um bom exemplo daquilo que quero dizer é a seguinte situação. O pai diz que o filho não pode fazer aquilo. O filho faz. O pai dá-lhe uma palmada. A teoria moderna diz que o pai, primeiro, deveria ter explicado ao filho o porquê de não poder fazer aquilo, e depois deveria ter repreendido com firmeza, castigando com a privação de algo que ela goste, mas sem palmada, porque não é tão traumatizante.
Qual é o meu problema perante esta argumentação? Antes de mais tenho uma divergência teórica: antes da criança agir ou deixar de agir devido ao motivo, deve fazê-lo porque é lhe é dito pelos pais. A explicação do motivo é secundária. Faz parte da educação das regras e dos valores, é impossível ser feito no imediato, deve acontecer ao longo de toda a infância. Se o pai manda, a criança deve obedecer e só depois questionar o porquê. Mas sobretudo, tenho problema com a aplicabilidade. Se já foi a 30ª vez que o filho fez aquilo, já está careca de saber que não deve e o porquê. Da minha experiência, a minha filha passa a vida a repetir os mesmos erros. Será que é necessário repetir a lengalenga sempre todas as vezes? Muitas das vezes o motivo ainda não é perceptível para ela, por isso é irrelevante. Depois, há castigos que não podendo ser aplicados imediatamente perdem efeito. Ela fica confusa quando lhe aplico um castigo por algo que ela fez no dia anterior.

Para mim, a psicologia é fundamental no tratamento de traumas e casos clínicos na generalidade. Tem alguma validade na orientação social, na gestão humana e organizacional e é tudo.

Para terminar, deixo-te com uma imagem parcial, ignorante e satírica da psicologia. Como é um psicólogo pode orientar se não pode interferir com a decisão, valores e moral do paciente?
Orientar implica indicar um rumo ou, no mínimo, apontar os vários pontos cardeais para que a pessoa se posicione. Mas não será o norte já um julgamento subjectivo do psicólogo?
Ajudar uma pessoa a encontrar o rumo por si própria é meritório, mas não seria mais fácil se se pudesse fechar logo à partida algumas portas?

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

"Acredito em Deus, não acredito é na Igreja"

Valham-me todos os Santos para que eu não tenha um ataque cardíaco quando ouço esta frase.

Primeira observação: acreditam num ser transcendente, invisível e todo poderoso;
Segunda observação: mas negam as dezenas de milhares de pessoas que constituem a hierarquia da Igreja e os milhares de milhões de fiéis.
Eu percebo o que elas querem dizer com isto, mas isso não invalida que elas tenham que o dizer como deve ser. O termo que usarei para os referir será, os arrogantes (explico entretanto, ou ficará subentendido :-) ).
Na mesma medida que a mim me dá uma síncope cardíaca e tremores frios quando oiço afirmações ridículas, papagaiadas, a eles basta-lhes ouvir, ler ou subentender o termo Igreja.
E porquê? Porque a Igreja não evolui, e deixa na idade da pedra milhões de fiéis que na sua inocência se deixam levar pelo conto do vigário e não pensam por eles próprios; porque os bispos e os padres são os piores; porque o Papa é rico e anda de carro blindado; o vaticano é podre de rico e não ajuda ninguém; há padres pedófilos, etc...
Por tudo isto "acredita-se em Deus, mas não na Igreja".

Tudo isto seria trágico se fosse mentira. Mas graças a Deus que é tudo verdade, pelo menos da forma como eu o vejo (que não garanto que seja da mesma forma que tu). Portanto, claramente existe aqui uma forma dissonante de encarar a vida entre mim e o arrogante. Talvez consiga explicar melhor dissecando ponto por pontos e subpontos.

a) Porque a Igreja não evolui, e deixa na idade da pedra milhões de fiéis que na sua inocência se deixam levar pelo conto do vigário e não pensam por eles próprios
        i) Não evolui
E passo a acrescentar, "não evolui na direcção que ele gostaria". Penso que o que ele queria mesmo dizer é que a Igreja deveria permitir que as pessoas fizessem o que queriam, mantendo o culto e o transcendente.
Efectivamente a Igreja não evolui. Embora tenhamos passado por diversas convulsões e concílios, tendo a forma se adaptado um pouco aos tempos modernos, o essencial permanece intocável. Refiro-me à Palavra, à ética e à moral. Fruto do estudo da história, o nosso entendimento da Palavra vai sendo aperfeiçoado à medida que vamos compreendendo os contextos em que os textos bíblicos foram escritos. Mas no compto geral, nunca passam de insignificâncias que visam aplacar a nossa ânsia racional de entendimento, sendo que a essência se mantém inalterada ao longo de 2000 anos. Por exemplo, através da passagem "do sacrifício de Isaac" entendemos, entre várias coisas, que Deus não deseja sacrifícios humanos em holocausto. À luz da história percebemos que esta passagem ganha outra dimensão já que a tradição pré-hebraica era rica em sacrifícios de primogénitos aos Deuses. E Abraão, sendo o primeiro monoteísta, quebrou com esta tradição violenta, instaurando o sacrifício animal em vez do humano. Ou seja, embora o entendimento da história dê uma visão mais clara daquela passagem, a interpretação mantêm-se.
Quanto ao facto da Igreja não ser permissiva nem "evoluir na direcção que muitos gostariam", não tem problema. Já há no mercado uma mão cheia de Igrejas À la Carte. Seitas à medida das vontades de cada um. Não chateiem, mudem-se!
Como referi no tópico sobre a relatividade, nós cristãos acreditamos em valores absolutos. Como por exemplo, a vida, a bondade, a paz, o amor, a beleza e o perdão. Se são valores absolutos, são em si incorruptíveis e insubjectiváveis. Logo imutáveis, não têm como evoluir. Porque todos eles derivam de Deus e Deus não muda, Deus é. Nessa medida a Igreja também não mudará.

       ii) fiéis que não pensam por eles próprios
Infelizmente esta é uma grande verdade e é um flagelo à escala planetária. Mas ao contrário do que os arrogantes pensam, esta não é exclusiva da Igreja. Uma obediência séria e comprometida com a Igreja traria inúmeros benefícios inequívocos à sociedade e à própria pessoa, pois, cultivaria a sua própria felicidade diariamente ajudando os pobres e necessitados. Torna-se um problema quando adicionamos outros vectores de influência contrária, nomeadamente, a publicidade e os media, que os incentivam ao despesismo e ao individualismo.
Consoante o apego material de cada indivíduo, penso que a racionalização crítica dos motivos por que se age, tem a propriedade de trazer um grande benefício pessoal e um pensamento independente. Por exemplo: somos levados a crer num determinado estereótipo de beleza física, de tal modo, que o sobrepomos ao cultivo da beleza interior com sentimentos de bondade, mansidão, alegria e paz. E se entendermos que o cultivo da beleza é um meio para conquistar um parceiro ou o simples sentir-se bem, qual das duas belezas será a mais eficaz? A aparência tendo um papel importante na conquista amorosa, torna-se quase obsoleta numa relação duradoura. Tem o condão de trazer muitas paixões, mas poucos amores. De modo análogo, se atendermos à necessidade de nos sentirmos bem, a alegria e a paz superam largamente a beleza física. Pior, se os padrões físicos forem demasiado exigentes, é natural que a auto confiança desapareça com o passar dos anos. Quero com isto explicar que, racionalmente, a beleza interior devia ser prioritária sobre a beleza física, mas existe uma pressão dos media brutal para inverter a prioridade, ou fabricar novos objectivos que foquem apenas a beleza exterior.


b) Porque os bispos e os padres são os piores
Tenho alguma dificuldade em contextualizar esta afirmação, mas penso que será no sentido em que os padres e bispos pregam uma coisa dentro das portas e, lá fora, são como os outros ou piores.
Mal de mim se não admitisse que toda a regra tem uma excepção. Mas é consensual que a hipocrisia é muito mal vista. Por isso, como humanos que são, os padres são tentados das mais variadas formas, e quando não resistem, fruto da sua própria hipocrisia, a sua acção parece mais condenável.
Mas na sua maioria, fora qualquer defeito pessoal que sempre existe, os padres são pessoas excepcionais na entrega e dedicação. Há uns poucos que chegam a ser extraordinários. Verdadeiras forças da natureza, incansáveis no auxílio aos outros. Mas aos olhos de muitos continuam os piores porque não atiram críticas a torto e direito como todos os outros, porque falam mal do consumismo e do materialismo, metem-se na vida de toda a gente, não nos dizem o que queremos ouvir, etc...
Mas esta frase tem sobretudo uma verdade intrínseca, embora quase imperceptível. Se ser o pior, significa ser o mais pecador, os padres têm obrigação de ganhar aos pontos a todos. Como referi no tópico sobre o pecado, a ignorância não é pecado. Logo, sendo os padres verdadeiros doutores sobre a matéria, devem conseguir identificar em si mesmos uma infinidade de pecados, que qualquer outra pessoa nem imagina que o sejam.

c) Porque o Papa é rico e anda de carro blindado e tem mil mordomias
Mais um conjunto de factos. O Papa é um ser humano brilhante, uma personalidade riquíssima e carismática. Não creio que tenha nenhuma riqueza ou património pessoal. Se o tiver, seguramente será a nível familiar, património esse sobre o qual não tem poderes particulares.
Se tem carro blindado é porque sabe que a posição que ocupa é dada a ódios cegos. E já diz o ditado "Fia-te na Virgem e não corras!" Que quer dizer, se estamos em perigo, há que não esquecer que Deus antes de mandar milagrosamente uma equipa de intervenção SWAT, deu-nos inteligência, capacidade de ponderação e prevenção. Se tenho inteligência para evitar ou prevenir uma situação complicada, não devo sentar e esperar que Deus resolva por mim, ou esperar que o pior não aconteça.
Finalmente, as mil mordomias, vestes ricas e palácios sumptuosos, vêm de pessoas que o querem servir, do significado das vestes e do património que não lhe pertence, mas deve cuidar. Ou alguém pensa que ele e os bispos vestem aquela catrefada de vestimentas, com todos os preceitos, cores e materiais, porque quer? É porque é aquilo que o seu cargo exige. A Igreja é uma instituição tradicionalmente simbólica. Os rituais, locais e materiais são profundamente simbólicos. Por exemplo, a água, o incenso, as flores, a vela, o ajoelhar, o vinho, entre muitos outros, mostram muito mais do que aparentam. Com os materiais sucede o mesmo. Há uma tradição antiga que se baseia na doutrina do dar a Deus o que temos de mais precioso. Portanto, quando fazemos alguma coisa para Deus é conveniente que o façamos de forma bela e dedicada, com sacrifício pessoal. Juntando tudo, percebe-se que é diferente usar uma flor ou diversos arranjos que perfumam o ar e alegram a vista, usar ouro em vez de cobre, vestir uma simples túnica ou um manto bordado.
É praticamente um dado adquirido que é o nosso coração e a forma com que fazemos as coisas que importa para Deus, mas enquanto ser humano, sei que há coisas que exigem maior sacrifício e que têm maior valor do que outras.
Parece que quando toca à Igreja, se exige um jeito forçado de humildade. Como se para ajudar o próximo, tivéssemos que andar andrajosos. É um sentimento de arrogância, exigir a humildade nos outros. Pois a humildade verdadeira não se exalta perante a riqueza ou a pobreza, aceita a incapacidade humana de conhecer todos os motivos e razões, e de ter um juízo falível.

d) O Vaticano é rico e não ajuda ninguém
Mais uma verdade em si. O Vaticano é rico em património e gere um gigantesco fluxo de dinheiro. Há quem ache que o Vaticano tem uma conta recheada de dinheiro que podia matar a fome a toda a gente no mundo, e que poderia vender todo o património para dar aos pobres. Qualquer uma das afirmações é falsa. Tão falsa como um gestor bancário ser rico, só porque gere um fluxo de milhares de euros por dia; ou o estado português poder vender a Torre de Belém a um consorcio Japonês! Não vejo o Estado portugês a vender território ou património (palácios, castelos, museus, florestas), para pagar o buraco da segurança social. Porquê? Porque não pode. Não lhe pertence. É apenas seu dever gerir e cuidar. E ainda assim tem um partimónio cultural, natural e histórico impressionante.
O Vaticano enquanto parte da Igreja, é efectivamente limitativo no auxílio directo aos pobres e necessitados. Mas faz comigo um exercício hipotético. Vamos estabelecer um objectivo: ajudar o maior número de pobres a comer uma refeição por dia. De acordo com os arrogantes, eu deveria vender a minha casa e os meus bens para não ser hipócrita já que eu não ligo muito às coisas materiais. Fiz isso tudo e consegui alimentar 10 famílias durante um mês e depois disso apenas uma família diariamente. Como vendi todos os meus bens, tive que alugar uma casa, mas continuei a pagar o colégio da minha filha e alimentar a minha família. Com a venda dos bens conseguir suportar 10 famílias durante um mês, mas o meu salário regular apenas me permite ajudar uma. Saldo: 10 famílias um mês (que voltaram a passar fome logo de seguida) + 1 família.
Agora, se em vez de dedicar o meu tempo e dinheiro directamente com o pobres, graças ao meu carisma conseguir cativar 10 ou 20 pessoas para fazerem o mesmo, gastando o meu tempo e dinheiro a auxiliá-las, e a cativar novos membros para a causa, e a ir pedir patrocínios para que os meus amigos consigam ajudar mais, e a criar eventos e organizações de angariação de dinheiro, quantas pessoas conseguirei ajudar? Directamente? 10 ou 20, pois não tenho dúvidas que ao cativá-los para a missão estou a ajudá-los a estarem bem consigo mesmos. Indirectamente? Incontáveis. Quanto contacto directo tive com os pobres? Zero.

e) Há padres pedófilos
E também há padres mentirosos, tristes, gulosos, psicóticos, ladrões. Mas são apenas uma minoria. Tal como em toda a sociedade. Têm o condão de nos mostrar que os padres também são humanos.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Mudança

Nunca te aconteceu pensares "no meu tempo é que era"?
Ou simplesmente "no meu tempo..."?
Penso que estas frases são utilizadas quando estamos perante alguém mais novo, e o tempo referido é o de quando tínhamos a sua idade. Ou no oposto, já as ouvimos muitas vezes de alguém mais velho. Mas se virmos o seu sentido literal, "no meu tempo é que era" é um paradoxo. O meu tempo é todo tempo enquanto vivo, desde que fui concebido até ao momento da minha morte.
Mas isto sou eu a divagar, onde quero chegar é que oiço esta expressão muitas vezes, como se o tempo actual tivesse lacunas que não existiam antes. De uma forma saudosista posso especular que crescer na década de 70 ou inícios de 80 foi muito mais fácil do que é hoje em dia. Nós podíamos andar na rua até tarde, se queríamos passar um bom bocado íamos ter com os amigos, a família reunia-se ao domingo à noite para ver a missão impossível, o Justiceiro ou o MacGyver. Tínhamos aulas só de manhã ou de tarde, todos sabíamos os nossos limites e todos levámos a nossa dose de palmadas e castigos quando os ultrapassámos.
Havia menos, muito menos focos de distracção (oferta de ocupações), e quanto mais recuarmos no tempo, mais isto é uma verdade, os jogos e brincadeiras eram em grupo, simples e muitas vezes inventados ou manufacturados. Não havia teorias sobre como educar os filhos, simplesmente educava-se.

Mas a verdade é que somos seres racionalmente complexos. Noutra circunstância seríamos os primeiros a argumentar as maravilhas dos tempos actuais. Pelo que vivi e pelo que vejo, todos somos criticos da mudança. Não há ninguém que seja a favor que tudo mude sempre, nem que nada nunca mude. A dificuldade está em encontrar alguém que consiga manter a imparcialidade. Eu consigo ver as comodidades que hoje usufruo como melhores do que as que tinha há 20 anos atrás, mas vejo com muita relutância a sofisticação e o leque de criminalidade actual ou a leveza com que se encara o núcleo familiar.

Um dos maiores problemas a que tenho assitido actualmente é a cultivação do ego e a desresponsabilização perante o outro. São as duas faces da mesma moeda. Quando penso em mim, não consigo pensar no outro. Coexistem e são cultivadas as noções de sucesso pessoal e de inevitabilidade social. Quero dizer que somos levados a crer que podemos ser tudo aquilo que quisermos, mas não existe forma de interferirmos com o que se passa à nossa volta, porque a liberdade individual é sagrada. E pelo que tenho visto, esta impotência perante a acção do outro chegou, inclusivé, aos pais perante os filhos. Já vi pais demitirem-se da tarefa de escolherem pelos seus filhos. E já vi jovens resignados com aquilo que o futuro possa trazer aos seus filhos, não aceitando ou acreditando no seu poder de os educar a serem ou fazerem algo. É para mim complicado ouvir um jovem dizer "mas como é que tu sabes que a tua filha irá para a Universidade? Não admites que ela possa escolher outro caminho?" Isto não anda longe de "Como é podes evitar que a tua filhe engravide na juventude ou se meta na droga?" Ilustra aquilo que referi atrás, demitem-se do seu papel pois estão impregnados de um sentimento de impotência social, a influência social (dos amigos, da televisão ou da escola) poderá ser demasiado forte para que as suas opiniões prevaleçam, ou no limite, têm medo de estar a limitar a liberdade do outro de fazer as suas escolhas.

A minha opinião sobre este tema é simples e descomplexada. A sociedade muda, é um facto. Empurra-nos e alicia-nos a todos para determinado rumo. A mudança traz oportunidades e desafios, benefícios e desajustamentos. Nem tudo é bom ou mau. Cabe-nos a tarefa de aproveitar os fluxos da mudança, mas fincar o pé àquilo que achamos que não deve mudar. E, la piéce de resitance, se algo não é bom para nós, possivelmente também não será para outros. Por isso, não basta lutar por nós. A isto chama-se responsabilização social ou, se estivermos a falar dos próprios filhos, educação.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

um seguidor

Estou extasiado.
Já sabia que tinha pelo menos um ou dois leitores assíduos a este blogue. Mas agora já tenho um seguidor. Quando chegar aos 12 fundo a minha própria igreja :)
Ontem um amigo disse-me que gostou do meu blogue, mas que achava que eu tinha muito mais para dar, que me estava a prender demasiado com religiosismos.
Confesso que a minha ideia inicial era essa. Mas de uma forma um pouco inconsciente, fui utilizando o blogue para dar respostas a ofensas e sentimentos que fui vivendo ao longo desde ano, ou simplesmente fazer eco de conversas que tive. E como a Igreja Católica está muito na berra, surge sempre um assunto religioso para falar. Só com raras excepções escrevi algo a partir de nada.

Talvez possa fazê-lo de agora em diante. Não há dúvida que não tenho dificuldade em dissertar sobre temas que estão relacionados com a vida humana. Talvez me possas ajudar. Sugere temas sobre os quais gostavas que me debruçasse.

Finalmente: quando chegar aos 12 seguidores marco um jantar com direito a prelecção. A este ritmo será daqui a 11 anos ;) Com direito a repetição sempre que alcançar multiplos de 12. Reservo, no entanto, o direito de revogar esta decisão se, por uma quase impossibilidade, o número de seguidores crescer a um ritmo superior a 12 por mês.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Jesus era Judeu, logo...

Não há muito tempo confrontaram-me com a seguinte questão: "Jesus era Judeu. Se ser Cristão significa viver à imagem Jesus e tentar viver como ele viveu, não deviam os Cristãos ser Judeus?" Obviamente a questão não me foi colocada assim tão direitinha, mas o objectivo da resposta era exactamente o mesmo.
Ao qual eu acrecentei: "não era só Judeu, era um excelente Judeu!"

Esta dedução é obviamente ingénua. E a minha primeira impressão transparece alguma dose de malícia da minha parte. Jesus não foi SEMPRE um judeu exemplar, pelo menos aos olhos dos Doutores da Lei da época. É sabido que ele era Rabi, pregava e discutia a Palavra nos templos. Isto diz-nos que ele começou por ser respeitado. Os evangelhos dizem-nos que já em criança ele mostrava grande sabedoria.
Mas sabemos igualmente que, no decorrer da vida pública, foi incomodando diversas forças e costumes estabelecidos. É sabido que Jesus colocava as pessoas acima das centenas de rituais e preceitos judaicos. A sua interpretação da Lei Mosaica (isto é, de Moisés) era única e holística (isto é, vista como um todo) e nunca aplicada às cegas. Jesus criticou fortemente todo o judeu hipócrita que vivia preocupado com as aparências. Fez coisas impensáveis àqueles Doutores da Lei, como privar com pecadores, não guardar os sábados e, acima de tudo, chamar-se Filho de Deus. Tirando esta última, que claramente poderia ser apontada por blasfémia, na minha opinião, nenhuma das outras poderia ser apontada como ofensiva à Lei Mosaica, já que sendo possível estabelecer uma hierarquia de preceitos, Jesus só quebrava preceitos para não incorrer em faltas mais severas à Lei. E nunca por discordar deles. É caso para dizer, porque estava preocupado com o que realmente era importante.

Agora, é preciso ser um grande desconhecedor da vida de Jesus para afirmar que para sermos à imagem dele, teríamos que ser Judeus.
Primeiro, se Cristo fosse um simples judeu, é claro que hoje não haveria cristianismo, a nossa principal referência seria Moisés e ainda teríamos o "olho por olho, dente por dente".
Segundo, acreditando que Cristo é o filho de Deus, fica difícil continuar a dar a mesma importância a Moisés, ou noutra pespectiva, dar menos importância à ressureição que à libertação do cativeiro no Egipto.
Terceiro, quando ouvimos o relato directo de Deus, em primeira mão, tudo quanto foi transmitido por intermediários, parece incompleto.

Portanto, Cristo não foi simplesmente um Judeu, nem tão pouco um Judeu como os outros. Aliás, só com Cristo a revelação divina ao homem ficou completa. Só aqui ficamos verdadeiramente a conhecer Deus, bem como, a saber na totalidade do Seu projecto para a humanidade.
Assim, ser cristão significa efectivamente viver a Lei Mosaica segundo os modos de Jesus, mas ainda assim, só depois dele a completar. E não há duvidas para ninguém sobre que caminho seguir perante uma lei incompleta e temporária e outra derradeira e definitiva.

domingo, 9 de janeiro de 2011

IURD

Igreja Universal do Reino de Deus.

Hoje vinha no carro a fazer zapping no rádio quando passei por uma rádio da IURD, onde falava uma pessoa desta seita. Confesso a minha ignorância, não sei que nome dar aos indivíduos que fazem os sermões. E acredites ou não, pela primeira vez na minha vida fiquei curioso para saber o que lá diriam e deixei-me ficar a ouvir.

O meu primeiro pensamento, após 2 ou 3 minutos de escuta foi, surpreendemente, será que eles irão para o céu?
Sei por experiência própria que não é apropriado tirar conclusões precipitadas. Corro o risco de generalizar algo que foi pontual. O problema é que a mensagem era inequívoca, que se resumia em:
- porque é a fé das pessoas é fraca?
- porque não provaram a Deus (isto falado em brasileiro não se percebe se era no sentido de saborear ou de demonstrar valor)
- como é que se prova a Deus?
- através dos nossos actos
- quais actos? (e agora vejam a subtileza da coisa)
- de generosidade, das nossas ofertas na nossa vida, [...] aqui na celebração, ao entrar nas portas do templo.

E depois continuou a dar mais uma série de argumentos para estimular a generosidade no templo. E além disso, afirmou que Jesus seria a resposta para o sucesso familiar, profissional e financeiro.
Não tive tempo para ouvir mais nada, porque cheguei ao meu destino. Mas esta parte final pareceu-me tirada da publicidade do Professor Muamba - extraordinário vidente, curandeiro, astrólogo e cientista.
Julgo não estar enganado por pensar que o sucesso financeiro mencionado, se refere efectivamente a poder ter muito dinheiro.
Já há bastante tempo que deduzi que existe uma proliferação de seitas porque, tal como existem restaurantes de comida chinesa, italiana, mexicana, etc, há que oferecer espiritualmente às pessoas que elas querem ouvir. E como as pessoas têm gostos diferentes, há que providenciar inúmeras maneiras de deixar as pessoas felizes. A regra que funciona sempre bem é ter um Cristo, pau para toda a obra e benefício.
A igreja Católica é chata porque não oferece o que as pessoas desejam. Bem pelo contrário, até constuma pedir coisas que não queremos. Por isso, como condenar alguém que está disponível para dar às pessoas o que elas querem ouvir, por determinado preço?

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Igreja? Religião? Que mentecaptos!

Hoje saiu uma notícia a dar conta do processo de santificação do Papa João Paulo II. Um certo jornal italiano especulava que o Vaticano teria validado o segundo milagre atribuído a João Paulo II.
Não foi a notícia em si que me fez escrever este post, mas antes os comentários que foram escritos online.
Exemplos:
- "Mas em pleno século XXI ainda há gente que acredita nesta treta de milagres? Só os beatos e fundamentalistas que não pensam e se deixam manipular por ideias arcaicas ...Usem da razão meus Senhores !!!"
- "As pessoas esquecem-se rápidamente dos milhões de pessoas que foram mortas em nome da Santa Inquisição! Esquecem-se dos milhares de nativos que foram mortos em nome da Cristianização! Acham que Deus permitiria isso? Esquecem-se das ligações secretas a governos tiranos, esquecem-se dos casos de pedofilia, esquecem-se dos tempos anti-ciência! Enfim..."
- ""A cura da religiosa francesa Marie Simon-Pierre, que padecia de Parkinson, tal como João Paulo II, foi considerada milagrosa, referiram".ENTÃO JOÃO PAULO II TINHA A MESMA DOENÇA, O PARKINSON, QUE A RELIGIOSA QUE CUROU E NÃO SE CONSEGUIU CURAR A SI MESMO COMO O FEZ À RELIGIOSA? ALGO AQUI NÃO BATE CERTO"

Temos aqui três tipos de pessoas: a primeira, um ateu puro e duro; a segunda, alguém que acredita em Deus mas tem uma revolta contra a Igreja Católica e; a terceira, a minha preferida, um amigo dos soldados que escarneciam de Jesus por altura da paixão.

O meu primeiro pensamento vai para a quantidade de pessoas que se revolta com estas coisas. Coisas que não lhes dizem respeito e que tão pouco compreendem, inspiram, por um lado, revolta e angustia, e por outro, sentimento de superioridade.
Por um motivo que não tenho a certeza de compreender, a Igreja, a política e o futebol têm a capacidade de exaltar espíritos.
Este pensamento entristece-me por um motivo. É sabido que alguém que profere palavras revoltosas ou iradas está revoltado ou irado.

O primeiro comentário, merece-me o seguinte apontamento. Os ateus são pessoas estranhas. Porquê, porque dizem que não acreditam em Deus, que a Ciência é que é. Isto faz-me espécie porque os valores católicos deram origem aos direitos humanos que temos hoje, ao invés, os cientistas estão sempre numa fadiga para se contradizerem e deitarem teorias existentes por terra. Não é estranho acreditar numa coisa que está sempre a mudar de opinião? A minha opinião sobre o processo científico é simples: É útil e deve ser estimulada.
A pessoa vai mais longe insultando quatro quintos da população mundial (estou a inventar este rácio, onde quero chegar é que é uma grande maioria) que acredita em milagres e fenómenos inexplicáveis. Que um ateu reconheça a incapacidade da ciência, eu aceito como argumento, agora negar taxativamente que estes eventos alguma vez aconteceram é ser cabeça dura. Será possível que não tenha ouvido falar da quantidade de casos documentados de remissão expontânea de doenças crónicas e terminais? Especulando que o sentido do comentário depreciativo é de que efectivamente as coisas inexplicáveis terão, mais tarde ou mais cedo, resposta científica, remete-nos para uma crise conceptual. Senão vejamos:
Ateu, por definição, rejeita Deus. Deus é, por definição, um ser superior, transcendente e poderoso. De tal modo que só por intermédio da fé, é possível acreditar em Deus. Pois fé, é uma capacidade que nos permite acreditar naquilo que não vemos ou experenciamos pessoalmente. Se nos confinarmos à versão comum de fé, esta é exclusiva da religião. Em lato senso eu argumentaria que não, mas para o caso é pertinente focarmos nesta posição. Agora diz-me se fores capaz: o que é que leva uma pessoa a afirmar que mais tarde ou mais cedo, um suposto milagre terá explicação científica? Eu diria, a fé na ciência. E esta hein? Afinal parece mesmo que a Fé está geneticamente programada na humanidade. E quando há um zelo excessivo em negar Deus, esta encontra outra forma de se manifestar. Aliás, é a negação absoluta de Deus que eleva a ciência a um estado de superioridade, poder e, pasmem-se, transcendência (ou não será a trascendência a capacidade de superar os limites do conhecido, no normal?) E vou ainda mais longe, enquanto nós Católicos temos uma fé normalmente fraca, fruto do desconhecimento, os nossos amigos ateus têm uma fé cega e absoluta na ciência. Porquê cega? Podem mil e uma teorias vir destronar mil teorias que no limite, qual uma assímptota, tem que estar a ciência.

O segundo comentário é uma critica directa à Igreja Católica. Provavelmente por um agnóstico, mas não é de excluir uma seita ou um protestante. Eu quando quero ofender alguém também gosto de distorcer, exagerar e atirar-lhe à cara os erros que ele fez no passado (por acaso nem é bem verdade, mas acho que é assim que a maioria das pessoas funciona). É facto sabido que não sou historiador, mas tenho uma costela de cientista, e quando quero ser levado a sério tento não cometer imprecisões e quando estou a especular, advirto o meu interlocutor. Primeiro, é muito fácil dizer que a Inquisição matou milhões de pessoas (adjectiva-la de Santa foi um golpe de mestre). Só em Portugal e Espanha, onde esta foi bem activa, deve ter matado mais de um milhão. O problema é que pelas minhas estimativas, no século dezasseis e dezassete a população da peninsula ibérica não deveria ter mais que uma dúzia de milhões de pessoas. É portanto legítimo afirmar que a Inquisição matou 1 em cada 10 pessoas? Para isso todas as famílias tinham que ter entre 2 a 3 familiares na fogueira. Parece-me claramente descabido. Uma única pessoa que tivesse morrido pela Inquisição já era demais, mas não queiram atirar-me areia para os olhos; outra imprecisão e ainda não saímos da 1ª frase: as mortes não ocorreram em nome da Inquisição, mas por intermédio da Inquisição em nome de Deus. Outro erro crasso é atribuir as mortes do afã descobridor dos nossos amigos espanhóis à evangelização. É um facto que haveria um excesso de zelo, mas não foi concerteza por causa do evangelho, mais sim da prata e do ouro. A igreja teve culpas no cartório com certeza, mas dizer que o frades e os padres andaram de espada na mão é exagero desde as cruzadas. E segue-se "la pièce de résistance" deste comentário: "Acham que Deus permitiria isso?" Das duas uma, ou ela está a insinuar que nada daquilo que escreveu antes aconteceu porque Deus não permite estas coisas, ou temos aqui um caso grave de falta de vocabulário e de linguarudice e, obviamente, de completo desconhecimento de Deus. Pois se aconteceu é porque Deus permitiu. Até o nosso amigo ateu vê isso. Toda a gente sabe que Deus não se intromete nas nossas escolhas. Depois continua com uma teoria da conspiração que eu não compreendo, logo abstenho-me de comentar, e termina com duas farpas bem afiadas que como se sabe é o equivalente a uma discussão entre miúdos "tu cheiras mal". É um comentário sempre à mão. A questão da pedofilia na Igreja faz-me lembrar a questão da gripe A no ano passado. De um momento para o outro, começaram a morrer pessoas por causa da gripe A. Chegou a ponderar-se uma pandemia. De um momento para o outro, a gripe sazonal deixou de matar pessoas. Ainda estou para saber as estatisticas que digam que a gripe A é mais mortal comparativamente à gripe sazonal, e que o número de mortos entre a gripe sazonal e a gripe A foi muito superior relativamente aos anos anteriores. O problema é que todo os outros casos de pedofilia (com excepção dos famosos) não dão notícias tão boas. Quem é que quer saber se o Sr Joaquim no alentejo é pedófilo? E para terminar, quanto aos tempos anti-ciência faz-me crer que o comentarista ainda acredita no Pai Natal. É que se lhe for perguntado em que medida a Igreja impediu o avanço da ciência, vai sair-lhe na ponta da lingua: Galileu. Teria muito a dizer sobre este assunto, mas para já basta-me isto: o que me dirias se eu afirmasse o "a terra gira sobre si"! Dirias concerteza "é um facto comprovado". E se eu justificar essa afirmação com observação das marés? Dirias "és pateta, porque as marés formam-se porque a Lua anda à volta da terra". E eu concluo, qual é o mérito de afirmar verdade justificando erradamente, ou arranjando justificações exotéricas? Galileu não foi condenado por dizer que a terra gira à volta do sol (a bem da verdade a ideia não era nova) mas por querer arranjar justificações exotéricas para isso, ou pior, querer extrapolar conclusões exotéricas para a dourina da Igreja. A afirmação que a Igreja é ou foi anti-ciência é uma vil e falsa afirmação. Não vale esquecer-se que ciência é um conceito moderno. Aquilo que nós hoje chamamos História, Quimica, Fisica, Economia, etc.. sempre foi Filosofia, Astronomia e Alquimia e a Igreja sempre foi a favor do conhecimento e embora pudesse ter alguma desconfiança com a Alquimia nunca deixou de ter padres Filósofos, Astrónomos e Alquimicos. A única preocupação, desde Santo Agostinho, foi na demarcação de Fé e Ciência e de evitar extrapolações de um para o outro.

E o meu preferido por último. Então o Papa João Paulo II curou uma pessoa e não se curou a ele mesmo, que tinha exactamente a mesma doença? É claramente o meu preferido porque os próprios soldados que levaram, escarneceram e maltrataram Jesus desde que foi condenado à morte, disseram exactamente as mesmas palavras. E ou muito estou enganado ou o nosso amigo comentarista não conhece esta passagem biblica. "salvou os outros, salve-se a si mesmo!" E ao proferi-las, em vez de estar a atacar a pensamento católico como era seu objectivo com este comentário, está simplesmente a reforçá-lo pois não há católico que não conheça esta passagem. E ficamos os dois felizes!
Não é minha intenção justificar a decisão de Cristo de morrer na cruz e não ceder à tentação de se livrar de tudo aquilo, mas este caso é muito simples: a canonização ocorre quando é comprovado um milagre por intercessão do beato. Isto quer dizer que o papa já estava morto quando ocorreu este milagre. A única coisa que a Igreja tem de se certificar é a que beato ou santo o curado tinha pedido intercessão. E mais, um milagre não acontece por vontade do intercessor, mas pela fé do curado. Mesmo Cristo, no seu tempo, não curava quem queria, mas quem acreditava que Ele o podia curar. Hoje em dia, ocorre de igual maneira, nunca seria o Papa João Paulo a ter o poder de curar, mas somente a fé do doente.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

O Pecado

Muitas vezes tive que explicar o que é o pecado original. Acredites ou não, a grande maioria dos católicos faz uma ideia errada do Pecado Original. Os meu preferidos são: "sexo", "desobediência a Deus" e "tentação". (Se achavas que pelo menos um destes termos é o Pecado Original, é apenas sintoma que tens de te informar melhor).
O intuito deste post não é definir o pecado original, apenas salientei estes factos para expôr uma teoria: Uma grande maioria de nós católicos tem um concepção errada de pecado e lida com ele de forma equívoca, a começar por aqueles que acham que "tentação" e "sexo" são pecado.
Na tentativa de amenizar esta critica directa à minha família católica, afirmo sem pudor que o desconhecimento é bem maior por entre os agnósticos e ateus que gostam de criticar a Igreja. E como toda a gente sabe, criticar-se algo que não se conhece é... hum, qual é a palavra?,... ah, sim... estúpido!

Voltando ao pecado; como é possível alguém pensar que "sexo" e "tentação" são o pecado original, se não são, de todo, pecado? É simples: há uma grande distorção ideológica, falsos pressupostos e péssimos catequistas por este país fora.
Na prática, pecado é tudo o que me afasta de Deus. Logo, é impossível conceber uma verdadeira noção de pecado, sem conhecer minimamente Deus. E quando falo em conhecer, não estou a incluir o "ouvi falar tanto, que até parece que O conheço". O que se deduz destas premissas é que, ter uma concepção de pecado equívoca, significa um deficiente conhecimento de Deus. Se a minha afirmação inicial for verdadeira (que a grande maioria dos católicos têm uma ideia errada de Pecado Original), não consigo deixar de me questionar que católicos temos nós na Igreja afinal, que cá fazem e o que os mantém por cá?

Continuando a teorizar, a minha intuição diz-me que o pensamento comum entre os católicos é que o pecado é mau, logo, deve ser combatido, posto de lado e esquecido. É um bicho papão que nos empurra para o inferno.

Isto deixa-me profundamente pensativo quanto à vida que os meus irmãos católicos vivem. Sejamos objectivos: há alguém isento de erro? Claro, os que não têm noção do bem e do mal. Todos os outros, aqueles que conseguem apontar um defeito no sujeito A, no político B e no trabalhador C, por natureza, são pecadores.
Segundo ponto: dos pecados que tomamos consciência, de quantos não conseguimos fugir? E se não consigo fugir, o que é que adianta culpabilizar-me? Martirizar-me por algo a que não consigo fugir é burrice do católico. A santidade exige-nos a aceitação da diferença dos outros, das suas fraquezas e dos seus dias maus. Na mesma medida, temos que aceitar as nossas faltas. Resignarmo-nos? Não. Simplesmente aceitar que há coisas que ainda não conseguimos fazer ou deixar de fazer, e, como qualquer criança, manter o desejo de crescer, ser mais forte e chegar mais longe.

Quando deixo que o pensamento nas minhas falhas crónicas me afaste da alegria, estou a tornar esse erro maior do que ele é. É um facto que Cristo espera de mim a santidade, mas seria tolice pensar que Ele espera que o façamos de um dia para o outro.

Finalmente, como referi atrás, só é possível saber exactamente o que nos afasta de Deus, se soubermos onde Ele está. Isto não é nenhum ensinamento da Igreja, é uma constatação lógica a partir de "pecado é tudo o que resulta no afastamento de Deus". E não há duvida alguma que quanto melhor O vou conhecendo, mais vontade vou tendo de não me afastar e, ao mesmo tempo, me vou sentindo mais amado e me tornando no maior de todos os pecadores.



quinta-feira, 29 de julho de 2010

As impertinências do contexto histórico

Às vezes oiço comentários, leio livros ou vejo documentários que retratam relatos negros na história da humanidade. Frequentemente existe o mau e, do outro lado, a vítima. Nunca te aconteceu ver um documentário sobre alces, por exemplo, no qual ficas tão triste quando aparece um leão que come o alce ou a cria do alce? Eu já. Mas sei também que já vi documentários sobre a vida dos leões, e fico triste quando percebo que a caça tem estado fraca e fico contente quando finalmente o leão apanha um alce para se alimentar a si e aos filhos, após uma semana de jejum.
Este contraste faz-me pensar na diferença que faz à minha cabeça uma simples mudança de observado. Perante a mesma cena, um leão que caça um alce, a minha simpatia pende para o lado que estou a observar.
A partir deste exemplo gostaria de fazer uma analogia com as tais situações e histórias negras no passado das civilizações.
Um exemplo: Marquês de Pombal
- Para os estudiosos e simpatizantes das suas obras, o Marquês de Pombal foi um homem muito à frente no seu tempo, que fez obras notáveis;
- Mas na perspectiva popular, o despotismo com que exerceu o seu governo foi uma mancha negra numa página da história de Portugal;
Segundo exemplo: Salazar
- Como é possível que haja pessoas saudosas do tempo da ditadura do Salazar? Porque para eles os benefícios contíguos à liberdade de expressão e associação, não compensaram os problemas que advieram com a democracia.
Existem muitos outros exemplos que eu poderia citar, incontáveis, onde a nossa simpatia tenderia consoante o objecto analisado e o preconceito do analista. Isto é, um documentário sobre Salazar pode ser abonatório da sua obra, ou pelo contrário, endemoninhá-lo consoante seja o objectivo do jornalista.

Agora coloco uma questão muito pertinente:
Existe alguma diferença entre o Salazar e o Marquês de Pombal? Na minha opinião, poucas. Ambos afastaram opositores e detractores e abusaram do poder para perpetuar a governação e manipular o povo.
Mas existe uma pequeníssima diferença que, para mim, é suficiente para exaltar o Marquês de Pombal e condenar o Salazar: o contexto histórico.
O primeiro governou no século XVIII e o segundo em pleno século XX. A diferença seria ainda mais substancial se estivéssemos a falar de um regente do século XII ou anterior e outro do século XXI. O que quero dizer com isto é, o primeiro, à parte a sua genialidade, limitou-se a governar com um pouco mais de zelo mas sem fugir ao que era expectável numa governação monárquica. A eliminação sistemática dos opositores é uma lenga lenga repetitiva nas páginas das histórias de todas as nações.
Quando é que surge a viragem? Em pleno século XX, a consagração dos direitos humanos, o fim da escravatura, a exaltação da dignidade humana. Salazar governou, portanto, num contexto entre democracias, onde se começou a encarar o ser humano numa perspectiva mais digna e humanista, e cujos actos foram mais despropositados e, por conseguinte, condenáveis.

Posto isto, carece-me chamar a atenção para uma prática que vejo frequentemente, e cuja objectividade é inexistente ou, pelo menos, parcial:
Quando se misturam cenários de séculos passados com moralidade do século vinte, ou cenários de outras culturas com a moralidade do ocidente. Isto é muito grave, pois facilmente induz o leitor em erro.
Um senhor decide expropriar a terra de um fazendeiro (cenário muito hollywoodesco, eu sei) em proveito de um nobre devido ao direito de sucessão não ser pago. Aos olhos do século XXI, este acto é uma tremenda injustiça, mas para viveu naquela época este era o pão nosso de cada dia. Era comum os senhores fazerem isto pelos mais diversos motivos. E quem diz isto, diz todo o género de injustiças. O escárnio e o ostracismo dos que eram diferentes; a não aceitção e a perseguição da mudança, o medo do incompreendido. Ainda não existia a distinção entre o acto e a natureza do actor. Não era o acto de deveria ser condenado, era o próprio actor que era condenado. Não havia distinção entre roubo e ladrão.
Vou dar apenas mais um exemplo:
Quando estive em Moçambique fui confrontado com a corrupção visível dos polícias. Neste caso em concreto, dos polícias de transito. É normal que o polícia de transito tente extroquir sempre algum dinheiro aos condutores. Principalmente àqueles que visivelmente transgridem as regras e aos estrangeiros. A princípio fiquei chocado porque os meus valores condenam aquele tipo de actuação. Mas tudo ficou mais claro para mim, quando percebi que não era aquele ou aqueles polícias em particular que faziam aquilo, mas se tratava simplesmente de uma situação/oportunidade que aquela profissão proporciona e que o polícia administrativo que passa o dia a fechar envelopes anseia por lhe tomar o lugar quando surgir uma vaga, para fazer exactamente o mesmo.

Porquê "impertinências do contexto histórico"? Onde é que entraria o romance nas cruzadas, na inquisição ou nas perseguições religiosas, se fosse respeitado o contexto? Não entraria. Tratar-se-ia simplesmente de uma tese antropológica ou sociológica. Por isso, o contexto histórico ou cultural é impertinente quando se pretende tratar destes assuntos de forma a condenar a acção de uma das partes.
Por muito que me custe admitir a Inquisição e outros erros da Igreja Católica, devo ser capaz de relativizar a acção para o respectivo contexto e não trazê-lo à luz do meu mundo. Neste sentido, as acções inquisitórias quase se tornam obvias. Era assim que os homens que detinham o poder lidavam com os problemas. Não havia a dignidade humana. A liberdade é um conceito que ganha corpo apenas na revolução francesa. Isto é, um conceito 5 a 6 séculos posterior (refiro-me ao inicío de ambos. É obvio que a inquisição do séc XVII em Portugal, nada tem a ver com a Inquisição romana do séc XII, nem os frutos da revolução francesa foram imediatos). Onde é que está, por isso, a justiça na critica à Inquisição? Normalmente guardada numa gaveta, trancada e sem chave. O romance assim o exige.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Homossexualidade - um ensaio

Não há muito tempo dizia-se que a homossexualidade era um comportamento desviante, com quadro clínico próprio. Tanto quanto o suícidio, a pedofilia, o sadismo, etc...
Actualmente esse diagnóstico foi alterado, para uma simples preferência sexual, ao mesmo nível que um homem pode preferir loiras a ruivas.
Mas há uma coisa que eu não percebo. Se "já" não há qualquer patologia associada à homossexualidade, qual é o papel das hormonas masculinas na minha sexualidade? Não serão elas as responsáveis por perder o fôlego quando vejo uma mulher lindíssima, ou sentir desejo por vislumbrar a nudez de uma mulher e, ao mesmo tempo, ficar indiferente com os mesmos atributos num homem? Logo, não será a falta destas hormonas, ou a inactividade delas, uma patologia?
Ou serão estas minhas sensações e reacções apenas fruto do contexto sociológico? Admito que a repugnância que sinto ao ver dois homens aos beijos seja preconceito social. Mas ao ponto de me quererem fazer acreditar que não há nada de errado com um individuo se sente atraído por alguém do seu género, já me parece propaganda nazi.
Mais ainda se pensar que um acto sexual desta natureza é prejudicial à saúde, pelo menos no caso masculino. Julgo não estar enganado ao afirmar que o sexo anal é prejudicial quando praticado regularmente.
Gostava ainda de não me escudar na naturalidade para argumentar contra a homossexualidade, mas é incontornável. Quer se creia ou não em Deus, é indiscutível a complementaridade entre homem e mulher. De uma relação homossexual nenhum fruto pode ser esperado. É uma relação estéril. Primeiro porque é impossível gerar filhos, crianças, o maior bem da humanidade; segundo, (algo subjectivo e argumentativo, mas sobejamente empírico, parece-me) porque a aproximação emocional entre dois indivíduos do mesmo sexo é de uma substância diferente da de dois indivíduos de género diferente. Normalmente o que num é fortaleza noutro é fraqueza e vice-versa. Por isso, complementam-se. Dentro do mesmo género, a compreensão é a única vantagem intrínseca, pois embora partilhem as mesmas fortalezas, padecem das mesmas fraquezas mentais e físicas.

Posto isto, devo dizer que não sou contra, nem condeno os homossexuais. Mas tão simplesmente a homossexualidade. É o acto que repugna, não a natureza.

Agora sobre a legislação do casamento gay.
O que poderá levar então uma sociedade a legalizar e a atribuir direitos a uma união que aparentemente é prejudicial à saúde (pelo menos para os homens) e que causa aversão a uma parcela da população?
O que poderá ter mudado numa sociedade que durante séculos condenou e marginalizou a homossexualidade?
O que poderá ter levado um Estado a legislar controversamente em nome da discriminação, mas não conferindo qualquer privilégio ou benefício relevante?

Já ouvi várias vezes o argumento da igualdade. Tudo bem. Fiquem lá com a bicicleta. Já me canso de rebater esse argumento.
A minha resposta é simples. Tratou-se apenas de uma operação que maquilhagem, sob pressão de um loby, que serve de porta de entrada com vista a um objectivo maior.
Se a luta era pela igualdade, não vos parece que a discriminação passou a ser ainda mais acentuada, ficando plasmada na legislação?
Qual discriminação? Ora, o casamento em si nada trouxe de relevante à comunidade gay, além de poder ficar com um carimbo no papel. Se eu fosse um puritano gay, ficaria revoltado por me estarem a atirar areia para o olhos. Pois permitem-me ir a uma conservatória assinar uns papéis, mas depois não me permitem adoptar ou ter filhos por via de inseminação artificial ou outras moralmente ainda mais duvidosas. Isso sim, seria igualdade.
O Estado ao não permitir a filiação a um casal homossexual está, por um lado, a espelhar a vontade da sociedade que não admite uma criança criada por dois pais ou duas mães - existe o reconhecimento de um trauma que afecta as crianças criadas sem mãe ou sem uma figura paternal. Em última análise, esta vontade social pode também reflectir uma previsão em que a criança adoptada será alvo da crueldade dos seus colegas, que é própria nas crianças e forma natural de reagir ao que é diferente - e; por outro lado, está a admitir a diferença, a não naturalidade, do casamento gay. Ou dito de outra forma, embora admita o argumento da igualdade, ainda não pode admitir o argumento da liberdade individual pelo facto que poder estar a interferir com a liberdade da criança.

Então porque é que esta lei tão estranha existe? Porque o loby gay sabe perfeitamente que bastam mais uns anos para infundir na consciências dos jovens a imagem de naturalidade na adopção por um casal gay, da inevitabilidade do progresso social e da desigualdade e injustiça existente por tal ainda não ser possível. O bem que faria à quantidade de crianças que estão por adoptar. Passados esses anos, bastará aguardar por um novo governo de esquerda para ressuscitar o debate e voilá. Logo, esta foi uma grande vitória.
Não é difícil deixar-se enganar por este último argumento. Mas eu desafio cada um que acha que há muitas crianças à espera de serem adoptadas, como se vê nos filmes, a inteirar-se sobre a realidade da adopção em Portugal. Garanto que ficaria com uma imagem muito diferente. A lista de espera de casais à espera para adoptar é enorme e antiga. Conheço um casal que, pelas minhas contas, já deve estar há mais de 4 ou 5 anos à espera. E de todas as crianças que estão nos orfanatos e casas de acolhimento, apenas uma percentagem pode ser adoptada, pois muitas ainda têm pais vivos, que por se manterem por perto, vão reclamando o direito de paternidade, embora sem o assumirem.

Adiante,
se o debate social é previsível, devo confessar que fiquei surpreendido pela posição de algumas pessoas católicas.
Desde que os gays não venham reivindicar um casamento religioso, é-lhes indiferente que o façam no civil. Ressalvando apenas a condenação da adopção.
Verificar esta atitude é doloroso para mim. Porque reflecte aquela máxima, completamente contra a mensagem cristã: "deixem-me cá sossegado no meu cantinho. Desde que não me venham importunar está tudo bem." Como é que eu posso defender uma coisa dentro da minha comunidade e depois defender outra lá para fora? Ao defender esta posição, estão a admitir que deve existir uma comunidade católico-religiosa e outra comunidade ateio-civil. Isto é, que devem agir de uma forma quando estão em actividades ou grupo católicos, e agir de outra forma quando não estão. Ou pior, que não se devem responsabilizar pelo que não lhes diz respeito. Por esta via de pensamento, a caridade está por um fio...

Foram muitos pontos de vista. Talvez não brilhantemente expostos, mas acho que reuni todos os meus argumentos sobre esta temática.

Em jeito de conclusão, deixo uma questão no ar, tão despropositada quanto inútil:
Em teoria, admitindo a liberdade individual como bem intocável, como é que um estado que aprova uma lei deste género, bem como o aborto, condena a poligamia? Na minha opinião, os muçulmanos teriam toda legitimidade para exigir a abolição da monogamia. Não encontro quaisquer argumentos sociais contra. Desde que exista mútuo consentimento de todos os envolvidos e sejam maiores de idade... não achas?

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Aborto

Agora que já não existem penalizações para quem recorre a aborto, estando longe do lume que se gerou com esta questão, gostaria de tecer alguns comentários.

Cada vez mais me parece que a discussão à volta do aborto foi, é e será uma discussão virtual.
Eu sei que nem toda a gente consegue ser tão radical como eu, mas nesta discussão existe um ponto de partida, do qual não abdico.
A partir de quando é que o feto se transforma numa vida humana?
A partir de quando é que o feto passa a ter direitos distintos do da mãe?
Querem debater, então debatam estas questões.
Para mim é claro que o feto é uma vida humana a partir da concepção. Tanto quanto um bebé que acaba de nascer.
Existe uma questão debelatória de consciência: o feto nada sente até à 24 semanas de gestação por não ter sistema nervoso. Para os apoiantes do aborto, este parece ser o prazo moralmente aceite. Penso que isto quer dizer que passa de feto a ser humano quando ganha a capacidade se sentir. É um argumento válido. Embora ridículo. Qualquer médico do mundo consegue anestesiar qualquer ser vivo, de forma a não sentir dor. Aumentar o prazo moral das 24 semanas para as 32 ou 36 por este motivo seria perfeitamente válido. O problema é que com este tempo de gestação, o feto já se parece com um bebé. Já está totalmente formado. E aqui já não existe argumento que aplaque a consciência. Portanto, de todos os males o menor: para ter a certeza que o feto ainda não sente e ainda não se parece totalmente com um bebé, decidimos 10 semanas de gestação.
Mas não é por estas considerações que eu vejo o debate sobre o aborto como um debate virtual.
O grande argumento a favor do aborto creio ser a questão da felicidade da criança, das condições de vida que aquele bebé irá ter. Isto decorre de situações como pobreza, pais em idade juvenil, pais viciados ou com problemas e outras situações derivadas.
Façam um inquérito a jovens e adultos que nasceram e cresceram nestes contextos familiares e perguntem-lhes quem preferia não ter nascido. Quem preferia nem sequer ter tido a oportunidade. Julgo que uma pequena minoria preferia ter sido um aborto. À grande maioria, simplesmente ter-lhes-ia sido negada a possibilidade.
Esta é que é a virtualidade: as crianças que sofrem, podem não advir destes contextos, nem todas as crianças destes contextos sofrem. É estarmos a pôr uma chancela de infelicidade naqueles bebés e nem sequer lhes dar a oportunidade.
É claro que eu não suporto ver uma criança sofrer, mas quem sou eu para decidir à priori se aquela criança vai ou não ser feliz?

Outro grande argumento é a precariedade com que as mulheres acabavam por fazer abortos, aquelas que não tinham dinheiro para ir fazê-los a clinicas em Espanha.
Agora façam outro inquérito: quais os perfis das mães que vão a clínicas abortar? Que percentagem se insere no perfil demagógico? Suponho que uma minoria.

O único argumento que considero válido é aquele em que a mãe achando que o feto é uma parte de si e não um ser independente, tem o direito de fazer com ele o que quiser, até que o resto da sociedade advogue direitos ao bebé, e se responsabilize por ele, mesmo que seja contra a mãe, que segundo a lei é a partir das 00h00 das 10 semanas. Até lá, só tem que se agarrar aos tampões de consciência que mencionei no princípio.

Em resumo: ou pegamos num argumento ridículo e arbitrário ou virtualizamos a questão. Assim falamos nós de aborto, aliás, interrupção voluntária da gravidez.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

A Igreja está pelas horas da morte

Acreditando nos alvitres do meu querido colega de trabalho, eu sou um enganado e a Igreja vai acabar por causa de pessoas como eu.
Passo a explicar melhor, segundo ele, eu engulo tudo aquilo que a Igreja diz sem pensar. E é por minha causa e de pessoas como eu que só dizem sim sim, e não conseguem ser críticos que a Igreja vai acabar. Diz ainda que todos deviam ser como ele que põe em causa o que lhe dizem, a menos que existam provas científicas.

E qual foi a última prova de que a Igreja está errada e está a esconder a verdade às pessoas que ele encontrou? Um livro que defende a tese do casamento de Jesus com Maria Madalena e que terão deixado descendência. É científico e de tal modo verdadeiro que até tem citações dos evangelhos que comprovam os argumentos.
Portanto, a Igreja sabe isto, e tem estes documentos escondidos das pessoas nos arquivos do Vaticano.

É claro que eu lhe disse imediatamente que se ele queria mais factos destes deveria ler o livro "O sangue de Cristo e o Santo Graal", uma obra de investigação publicada na década de 80, que se não estou em erro, foi a primeira a conjecturar esta teoria. Aí é que qualquer réstia de dúvida que a Igreja é uma instituição cheia de segredos podres, desaparecia num ápice.

Qualquer teólogo conseguiria desmascarar estas questões com meia dúzia de palavras, normalmente eu também consigo, mas por uma razão que não consigo perceber, é-me impossível transmití-lo ao meu colega. Primeiro porque segundo ele, não é por eu estar metido dentro da Igreja que sei mais do que ele, até pelo contrário, pois como já referi, isso embrotece-me os sentidos.
E mesmo que eu lhe prove que é por A + B que eu acredito em algo, com sorte obtenho como resposta: "isso não é bem assim".
Já lhe tentei explicar algumas vezes os critérios que os pais da Igreja utilizaram para escolher os evangelhos canónicos, mas surge quase sempre a questão dos outros evangelhos que a Igreja não aceita e que deveria aceitar já que são contemporâneos (mais século menos século) e que não aceita porque não lhe convém.
Enfim, é complicado, mas ao mesmo tempo estimulante. Não troco uma discussão nossa por nada. Num momento estamos aos berros, noutro estamos a gargalhar.

Mas levanto estes factos que se passaram comigo para provar uma tese: a igreja está de facto pelas horas da morte.
Da parte que me toca, espero que ela morra e fique bem enterrada.
O QUÊ? EXCUMUNHÃO!!!!! COMO PODES DIZER ISSO?
Bem, posso dizer e digo sem medo. Mas antes da explicação, um pouco de história:

Desde que Constantino adoptou o cristianismo como religião oficial romana, que esta nova religião teve um crescimento exponencial.
A Igreja foi fundada para permanecer no tempo, para guardar e anunciar a Boa-Nova. E a mal ou a bem, tem-no feito.
Existiram momentos conturbados nesta expansão católica. Durante muito tempo a religião foi imposta, houve perseguições, existiram abusos.
À luz dos nossos dias, estas acções são brutalmente repugnantes, mas à luz dos dias em que os factos se deram, era assim que as pessoas viviam. Era assim que as pessoas governavam.
Este legado, transformou uma religião atractiva, numa religião tradicionalista, mística, monótona e monocórdica. Sucederam-se cisões no cristianismo, fruto do misticismo e do ostracismo a que a elite da igreja votou as populações. No fundo, creio que a igreja teve durante muito tempo medo da deturpação da doutrina. Com tantos milhões de fiéis, a heresia espreitava a cada esquina que tentasse açambarcar a Palavra para si e à sua maneira. Além disso, todas ânsias e dúvidas encontravam resposta no misticismo criado. Era a Igreja possível.
Mais recentemente no Ocidente, a ciência tomou a supremacia sobre a religião, a politica e a governação sobrepuseram-se à religião, relegando-a para a mera escolha pessoal, livre e arbitrária. De repente (olhando cronologicamente, claro), a Igreja foi recauchutada para longe da ribalta, dos meandros do poder, acusada de milhares de perfídias presentes e passadas, apelidada de retrógrada, condenada à extinção.
Tudo isto visto de fora.
Até visto por dentro as coisas não parecem famosas.
- os pais querem baptizar os filhos e os padres só arranjam entraves, exigem padrinhos xpto, uma complicação!; Não admira que
- as assembleias estejam a ficar cada vez mais vazias, cada vez há menos pessoas a frequentarem a igreja;
- uma pessoa vai à missa só dá vontade de dormir. Ninguém percebe o que se lá passa;
- uma pessoa quer ter uma vida normal, mas não se pode usar preservativos nem pílulas;
- cada vez há menos padres e não os deixam casar;
- porque é que a igreja não evolui?

De facto, parece-me que a igreja está pelas horas da morte, não te parece?
E agora a explicação.
Desejo ardentemente que este conceito de igreja morra, deixe de existir. Que a forma com que o meu colega vê a Igreja desapareça. Há tanto preconceito contra a Igreja que não permite a quem está de fora olhar para o que verdadeiramente importa. Mesmo para quem olha por dentro, as coisas parecem deslocadas, fora do tempo.
É tudo isto que eu desejo que desapareça. Esta ideia de Igreja que simplesmente não é e, provavelmente nunca foi.
A Igreja que eu conheço é enérgica, viva, renovadora, atractiva, mobilizadora, caridosa e acolhedora. Só fala de Verdade e Amor e não se impõe.
Felizmente, o contexto actual laico é propício a voltarmos às origens, onde as comunidades cristãs eram pólos de atracção. A tradição associada às multidões e ao conformismo, resulta numa Igreja letárgica. Chega de pessoas que vão à igreja porque é tradição, vão à missa porque foi assim que foram ensinadas. Chega de pessoas que só sabem olhar aos defeitos do passado. Chega de intolerância para a mensagem católica: não é uma proposta para todos, é para alguns, e mesmo para esses é desafiante e difícil de cumprir. Chega de opinar sobre o que não se conhece e porventura não se percebe.
A Igreja vive por Cristo, e tanto quanto me diz respeito, só quem se sente atraído por Cristo conhece a verdadeira Igreja. Só quem se deixa apaixonar por Ele, é que conhece a verdadeira razão de viver. E os que vivem deste modo, vivem tão intensamente, que são faróis brilhantes nesta sociedade, e arrastam consigo muitos outros.
É por isso que a Igreja nunca morrerá. Porque Cristo continua tão apaixonante hoje como no princípio, quiçá talvez mais. Basta que se limpe os óculos do preconceito, que por trás logo se vislumbra esta Igreja. Tudo mais, pode morrer que não faz cá falta nenhuma.



quarta-feira, 30 de junho de 2010

E se afinal Deus não existe?

Se esta pergunta não foi colocada pelo menos um milhão de vezes por cada crente, andará seguramente lá perto.
Do mesmo modo, tenho a certeza que cada ateu já se perguntou pelo menos 2 milhões de vezes ao longo da sua vida: e se afinal Deus existe?

Vou contar-te um segredo.
À luz da ciência moderna, o que te parece mais razoável, acreditar ou negar Deus?
Poderás por ventura pensar que face às grandes descobertas científicas, ao modo como o homem se conseguiu tornar o centro da suas próprias vidas e ao modo como consegue responder às suas dúvidas (pelo menos a grande parte delas) sem recorrer a milgres e a divindades, que será mais óbvio negar Deus do que acreditar.
Eis o segredo: é preciso muito mais fé para negar Deus do que para acreditar.
Repara, primeiro é preciso ignorar um aspecto intriseco ao homem, a necessidade de transcendência. A religião organizada é relativamente recente atentendo à idade da humanidade. Mas os relatos empíricos mostram-nos que sempre onde existiu um homem, existiu um culto à divindade, ao transcendente.
Segundo, é preciso ignorar a origem. Dito de outra forma é preciso ter uma fé irracional na ciência. Isto é, de acordo com o paradigma científico actual, sabe-se que o vácuo nada gera. A lei de Laviosier mantém-se actual: nada se ganha, nada se perde, tudo se transforma. Do nada não pode surgir algo. Logo, para negar Deus é preciso negar a própria ciência, Pois, de onde veio toda a matéria? O que deu inicio ao bigbang? Para negar Deus seria necessário provar-se a autogenese, acreditar na autogenese, e para acreditar na autogenese é preciso negar a ciência. Logo, deduz-se que se não existe autogenese, é imperativo que exista um criador. E é obvio que não é possível acreditar num criador de matéria, sem admitir a sua transcendência, poder e inteligência.
Terceiro, é preciso ignorar as milhões de histórias pessoais de indivíduos que conhecem e conheceram Deus, já para não falar de actos milagrosos. Acreditar que existem e existiram biliões e biliões de pessoas que vivem e viveram enganadas (digo viveram enganadas, e não que tiveram conhecimentos errados, pois até hoje o nosso conhecimento é limitado. Qualquer historiador pode afirmar com toda a certeza que o nosso conhecimento se tornará em breve obsoleto). É preciso ignorar o poder da oração.

Portanto, reforço, é preciso mais fé para negar a existência de Deus do que para acreditar.
Mas este discurso é absolutamente infértil. Não passa de conversa, conversa intelectual e pouco acrescenta à minha vida. O mundo está cheio de pessoas que se renderam a esta evidência. Existe um criador, mas não acreditam na religião.
Não posso condená-los. Talvez apenas recriminá-los por nem sequer tentarem. Talvez apenas recriminar-me por não lhes conseguir mostrar como a minha vida é diferente, com muuuuuuito sabor, por ter fé.

Mas adiante. Passando as questões científicas.
E se Deus não existisse?
Para muitos a questão primordial seria não existir condenação eterna, não existir inferno. Se não há repercussões dos meus actos, desde que me vá conseguindo safar por cá...
Para outros seria não existir recompensa, não existir paraíso. Para quê esforçar-me para ser uma boa pessoa se depois não terei a vida eterna?
Para alguns seria não ter aquele amigo sempre presente. E quem é que ficará sempre comigo quando estou em baixo?
Para estes seria um alívio. Acabou-se o radicalismo, a crendice, a estupidez, a carneirada.
Para aqueles seria indiferente. Nunca fui muito ligado a essas coisas.
Para aqueloutros seria não existir respostas para as questões existenciais: quem sou eu, o que faço aqui, para onde vou.

E para mim?
Se Deus não existisse seria o fim do mundo, o inferno, o desespero.
Como é que posso ser tão trágico?
É simples.
Tenta imaginar um mundo sem amor.

É assim que seria um mundo sem Deus.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

A relatividade das coisas

Já alguma vez paraste para pensar nalguma das teorias da relatividade do Einstein?
Eu já! E o mais engraçado é que para mim, a relatividade não é um teoria, mas sim um facto. A teoria está na forma como Einstein a pensou. Isto é: as teorias pretendem quantificar algo que para nós é, na sua maioria, visível a olho nu. Mas para essa quantificação ele teve que tomar como alicerces, hipóteses à data impossíveis de verificar, embora verosímeis, por exemplo, a supremacia da velocidade da luz no vácuo. Daí apenas ser uma teoria.
Então porque digo que a relatividade é um facto? Porque não estou a falar da teoria mas apenas do conceito. A relatividade é subjectiva e, acima disso, dialéctica. É tão verdadeira e real, tão entranhada no nosso espírito, que muitas vezes me esqueço dela, principalmente contando com quanto me poderia ser útil.

Estava no meu 7º ou 8º ano da escola quando descobri a relatividade. Pensava em voz alta com uns amigos: ''já viram como estes prédios são grandes? Ao pé deles somos, de facto, pequenos. Mas se virmos bem, deve ser exactamente o que uma formiga pensa de nós...''
Na altura senti um frémito de como quem descobriu algum coisa. Não é que me tenha servido de alguma coisa, mas fiquei contente por dar uso à razão. É engraçado raciocinar sobre um assunto que nunca pensámos e chegarmos a algumas conclusões que não conhecíamos.
Mas estou para aqui a divagar. Aquilo que me importa falar sobre a relatividade é como ela me pode tornar uma pessoa melhor.

Primeiro, alguns esclarecimentos.
A relatividade é subjectiva. Como depende da observação, ou em última instância, da imaginação, cada cenário é único para quem observa. Com os meus olhos, a minha educação e os meus preconceitos, relativizo (ou não, que ainda é pior) as coisas à minha maneira.
A relatividade é dialética. Só existe relatividade quando eu consigo discernir ou simplesmente divagar sobre o assunto. Ou seja, quando da observação resulta um conjunto de deduções ou induções para chegar a uma conclusão. Se da observação resulta uma conclusão, estamos na àrea do absolutismo, do preconceito.
Finalmente, tudo será relativo? Já tive algumas conversas de ocasião sobre este assunto. Há quem diga que sim, que nada há neste universo que não seja relativo, pois tudo pode ser relativizado à luz de algo.
Para mim este pensamento é estranho. pois se não existem valores ou ideiais absolutos, comparamos o quê com quê? Claro que na relativização temos que encontrar âncoras a partir das quais comparamos e relativizamos o que pretendemos (como nós os economistas gostamos de chamar et ceteris paribus - e tudo o resto constante). Mas se em momento algum existe um ponto de partida que seja imutável, como posso garantir que a âncora é válida. Aquela âncora já pode ser fruto de um preconceito tal, que nem sequer é aceite pacificamente como âncora por todos.
Enfim, quase tudo pode ser relativizado, mas sem a certeza de algo absoluto na minha vida, corro o risco de não saber para onde devo caminhar.

Referi atrás que acho que a relativização pode e deve servir para me tornar um pessoa melhor, mais conscienciosa do que me rodeia. Mas não basta relativizar, há que fazê-lo (perdoa-me mas tenho que usar dois palavrões) de forma holística e fazendo uso da hermenêutica diatópica. Traduzindo por míudos quer dizer, primeiro, que não devemos tirar conclusões somente com base numa acção, mas sim atender ao todo que conhecemos e ao que podemos desconhecer daquela pessoa; segundo, não olhar para aquela acção somente com os nossos olhos, mas fazer um esforço para conseguir ver com os olhos da pessoa que a realizou.
Por exemplo:
- Facto observado: A pessoa X a bater com um pau na pessoa Y.
Uma conclusão imediata após a observação, levar-me-ia a dizer que a pessoa X quer mal à pessoa Y. Mas se tiver o cuidado de relativizar a acção, surgem uma infinidade de conclusões possíveis:
- O Y é um bandido. O Y magoou o X e este está a defender-se;
- São grandes amigos. Não se trata de um pau, mas de uma brincadeira de carnaval;
- Acidente. O X não viu o Y e acertou-lhe sem querer.
Mas mesmo dentro da conclusão mais verosímil, que o X está a reagir a algo pelo que o Y é responsável, existem muitas possibilidades:
- O X está a reagir mas porque foi induzido em erro, o Y não fez nada;
- O Y portou-se mal e o X está a dar-lhe uma lição, não é um pau é uma régua de madeira...
- O X foi durante muito tempo manietado pelo Y e agora, finalmente, conseguiu libertar-se;
- O Y fez de facto uma maldade, mas foi sem querer, está arrependido e nem sequer se defende;
- ...
Acho que já percebeste onde quero chegar. No fundo estou apenas a apontar razões para evitar um grande flagelo da nossa sociedade: a crítica; o apontar o dedo, o preconceito.
Quem sou eu para criticar algo que desconheço?

Termino com um alerta. Estou convencido que a relatividade pura é um mal da nossa sociedade. Mas se for temperada com valores absolutos como o Bem, a Beleza, o Amor e a Paz, a partir dos quais relativizamos o resto, então é uma ferramenta fundamental para me tornar uma pessoa melhor.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Sobre o amor

Muito tenho falado aqui sobre o amor.
Talvez seja altura explicar o que ele é. Pelo menos para mim, e na forma como o tenho empregue neste blogue.

Amar é importar-me com alguém um pouco mais que me importo comigo.
É preocupar-me com a felicidade de alguém um pouco mais que me preocupo com a minha.
É desejar melhor para alguém que quero para mim.

Mas amar é, acima de tudo, agir, ser, fazer, conseguir que tudo isso aconteça, independentemente das consequências.

A Excepção

Não deves encarar a excepção que referi no último post, como uma excepção na total acepção do termo. Embora, na teoria divirja do "amar porque sim".
Estou a falar do namoro e, em sequência, do casamento.
A atitude deve ser a mesma que referi anteriormente, agir sem querer nada em troca, sem esperar retorno, desejar e fazer tudo para que a outra pessoa seja feliz.
Mas na teoria, não deves ter receio de esperar que o outro faça o mesmo. Pois se não o fizer, espero que a paixão não te turve os olhos durante demasiado tempo para saberes que te vais magoar. Por isso, o namoro serve para experimentar se um casal está em sintonia neste aspecto, se estão a caminhar lado a lado, ou se procuram ir de encontro um ao outro e vivem às turras, ou se divergem no caminho e se separam.
Mas esta excepção é mais que necessária: é fundamental. O que à primeira vista pode parecer uma falha na demagogia - só desejo que sejas feliz, desde que desejes o mesmo para mim - é na realidade o mais importante de uma relação e que é demasiadas vezes ignorada.
Senão vê por mim: eu espero sempre o melhor de mim e sou muito exigente nesta matéria do amor. Espero sempre de mim um amor incondicional. Espero que a minha coragem não falhe, que a minha humildade permaneça... Será racional não esperar o mesmo da outra parte de mim?
Se eu e o outro somos um, então temos que encarar a relação do mesmo modo. Devo desejar ser amado da mesma forma que eu amo: sem pensar em mim.
Passe o paradoxo!

sábado, 1 de maio de 2010

Amo porque sim - uma explicação

Quem é que normalmente utiliza a expressão "porque sim"?
As crianças, claro! Eu próprio a utilizei vezes sem conta na minha infância. Demonstra precisamente que nem todas as acções carecem de explicação.
É este o espírito que considero que deve comandar todos os gestos de amor. Não preciso de uma causa ou incentivo. Não preciso esperar nada em troca para amar alguém (salvo uma única excepção - vê o próximo post). Mas esta frase compreende mais que isto. Indo ao encontro do verdadeiro espírito de caridade, reflecte sobretudo o carácter imperativo do amor: tenho que amar. Porque tem de ser, mesmo que eu não queira, me apeteça ou custe. Ai de mim se não amar!

Se não preciso de um motivo ou momento, então, amo porque sim!